"Marcio é maravilhoso

Marcio é divino

Marcio é moço fino

Rufino é homem com olhar de menino

Marcio é decidido

Marcio é mestre, brilha no ensino

Marcio é guerreiro...

E nesse Emaranhado Rufiniano, quero me emaranhar."

(Camila Senna)















domingo, 2 de outubro de 2011

Mixtureba Enraizados










Na última noite de segunda-feira do dia 26 de setembro de 2011, rolou no Espaço Cultural Sergio Porto o evento Mixtureba Enraizados, produzido e organizado pelo Movimento Enraizados, grupo cultural que tem no hip-hop a sua principal linguagem e vem agitando a cena artística no bairro Morro Agudo em Nova Iguaçú. Apresentado pelo rapper, poeta e ativista cultural Dudu de Morro Agudo e pela atriz Gil Torres, tive a honra de ser o poeta convidado da noite acompanhado do cantor, compositor e músico Beto Gaspari. A noite também foi abrilhantada por performances do CTI ( Comunidade Teatral de Irajá ) e a Y Cia de Dança, além de debate sobre a participação da Palestina na ONU. Vida longa ao Mixtureba e ao Movimento Enraizados.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Caçada dos Instantes



É um antigo sonho que se rematerializa
Em formas insanas e incoerentes
Uma tela que se repinta em cores diferentes
Nela dois sinistros pequenos círculos próximos
Me perseguem pelo quadro de imagem árida
Penso que são seus firmes olhos
Mas são os penetrantes olhos de uma águia
Ao despertar não consigo conter o motim que há no leito
Dos fragmentos que surgem no meu ócio
Como um fino som agudo no peito
Surgido aos poucos no fundo do silêncio
Os fragmentos são meus queridos amigos fantasmas
Testemunhas únicas do louco nascedouro de minhas palavras
Arautos de um cruel pôr-do-sol que invade
O crepúsculo evasivo e selvagem de antigas horas
Mas lembro que antigamente as tardes
Eram mais tranqüilas, quase mortas
Na caçada dos instantes
Reverberam inúteis certezes cínicas, incessantes
Vigiando tempos
Perscrutando previsões
Acossando momentos
Tocaiando as ocasiões
Tudo constantemente uma coisa na outra implica
Nada nasce do nada
E até o nada se recicla.


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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Negritude


Eu sou negro
Quero que meu tronco
Seja seu corpo
E minhas algemas e grilhões
Sejam seu abraço.

Eu sou negro
E não quero que você
Me venda
Quero que você me entenda
Quero que minha presença
Seja o real navio negreiro
Que me liberte do negro afro
E me leve a um sentimento ladino
Me leve ao encontro do negro latino
Dentro do complexo quilombo-continente
Que há em mim.

Pois, então venha
Que ainda sou negro
E meu maior segredo
É que nem abolições, nem cotas
São remédios, nem apagadores
Não desaparecem com as dores
De um passado cruel.

Por isso sou negro
Porque não quero
Que falsos sorrisos e hipócritas políticas
Substitua chibatas
Quero que o amor valha
Para além do samba e da cocada
Para muito além da feijoada.
Pois minha alma é incolor
E ao mesmo tempo tem todas as cores
Possui todos os odores
Que podes supor.

E não há como ser negro
Sem um pingo de maldade
Sem um pingo de piedade
Dentro do quengo.

Pois venha
E quando quizeres me seduzir
Não serei mais um simples negro
E sim a noite que se fez em homem
Pra te possuir.

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domingo, 7 de agosto de 2011

Negro Éden


Da floresta negra ao redor de mim
Só vejo a penumbra de uma luz vazia
Só sinto o calor gelado de um serafim
Só canto o que restou de uma vida luzidia
Há vultos que perambulam cabisbaixos
Pisando em galhos secos emaranhados.

Estrelas dançando um balé mórbido
Cinzentas nuvens vagando imponentes
A fauna se agitando num grito sórdido
A flora se erguendo, seguindo em frente.
Há rios vermelhos de groselha e de sangue
Há margens sinistras de areia e de mangue.

O azul-marinho desse intenso céu
paira lento no ar sedutor
Que rasga seu estranho e denso véu
Numa fracassada tentativa de sufocar seu fulgor.
Frutos que não alimentam, mas matam a fome
Sementes que não brotam, mas erguem um homem.

A folha seca é a roupa nua
O caroço carcomido é o alimento minguado
Ah quem dera ver tua carne crua
Ser violada por um pensamento alado.
Gozo que te jogue no inferno
Sofrimento que te erga ao paraíso eterno.

Mundo orgulhoso por vencer o bem e o mal
De servir e de se negar a toda essa gente
Que supera o sabor insípido do açúcar e do sal
Mundo livre; protegido de Deus e da serpente.
Ambiente puro por reconhecer sua perversão
Ambiente resolvido por assumir sua questão.

Imagem: Foto de Christian Cravo

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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Indócil Idílio



Devido a feroz solidão que em meu peito aperta
Eu nem me dou conta da reluzente estrela cadente
Que bem devagar e sem cerimônia despenca na nossa frente
Dizendo que a luz que aponta para o nosso futuro é muito incerta.

Era uma noite melancólica
Os comércios estavam fechados
Nossos passos eram largos
E a gente passeava pela rua bucólica.

As coisas aparecem e desaparecem sem deixar rastro
No mundo tudo passa muito rápido
Os pensamentos se diluem como se tomassem ácido
Ou se quebram com facilidade como vaso de alabastro.

Este seu ar de quem subjugou toda uma cilvilização
E percebeu que isso não valeu de nada
Lembra o soldado que, aleijado, tenta manter a guarda.
Tudo cai aos nossos pés; cidades, pessoas, menos um coração.

Conforme nossos atos, podemos ser na vida animais ou vermes
Mas sempre estamos atrás de algo que se reproduza
Acho que em outra vida fui a espada com a qual Perseu cortou a cabeça da Medusa
Ou com a qual Judite cortou a cabeça de Holofernes.

De meu ser e minha gente sou orgulhoso
Amar a mim e a meu povo é o que me resta.
Nunca diga que uma pessoa não presta
Pois cada ser-humano é um mistério mavioso.

Enquanto julgavas que era para teu pé um calo
E na tua vida nada mais que um peso morto
Eu me perdia nas matas negras do teu corpo
E descobria que teu coração morava dentro do teu falo.

Quem haverá de salvar nossa juventude alada
Enxugar suas lágrimas de Alexandre castrado
Que chora amores perdidos do passado
Lamenta toda sua virilidade prostrada?

De tudo que não é do bem eu tenho asco
Mas o meu sonho é nós nos entendermos sem compromisso
Botarmos para fora todo desejo reprimidamente omisso
Rei Salomão e a Rainha de Sabá fazendo amor numa cama de Damasco.

Sei que de meu opróbrio não sou digno de redenção
Cabe a mim gemer o gemido atroz da ema
Queria ser mais imortal do que um lindo poema
Mas minha humanidade é a minha real maldição.

Nosso caso com muita dificuldade respira
Nas veredas tortuosas de suas artérias
Morrendo para dar vida a outras matérias
Na superfície da minha pele que transpira.

O lance é mandarmos o medo para um lugar onde ele se debande
Resgatamos nossa sinceridade perdida de criança
Reconquistarmos com labuta nossa auto-confiança
Pois dizer "eu te amo" é uma responsabilidade muito grande.

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Quarto Azul


Em câmera lenta
subo a pequena escada
chego ao corredor estreito
de onde avisto uma intrigante
porta encostada.

Numa triste submissão
a uma força superior
caminho sem pensar em nada
em direção à porta encostada.

Porta feita de madeira marrom.
Marrom que lembra minha infância.
Não sei se querida.
Não sei se partida.
Não sei se perdida.

Empurro a porta.
Vejo um quarto.
O quarto é azul.
Um azul de vários azuis.

Azul-céu.
Azul-mar.
Azul-noite.
Azul-piscina.

Dentro do quarto
há uma cama.
Sobre a cama
há uma pessoa nua.
Por cima da pessoa
havia várias moscas a voarem.
Não sei se desnorteadas.
Não sei se mal-amadas.

Sentei do lado da pessoa nua
e ela me falou de coisas
que pensou, que falou,
que comeu, que bebeu,
que desejou, que amou.

E sem saber ela me conduziu a planetas desconhecidos,
me apresentou a seres bizarros,
me fez cheirar aromas finos,
provar pratos requintados.

Foi quando notei que eu também estava nú.
E que as moscas haviam se transformado em estrelas
que cairam exaustas no chão.

E a cama já não era mais cama.
Mas um pequeno barco a vela.
Vela que era pura seda,
puxada a vento que não existia.

E o quarto virava pura água.
Não sei se de mar, ou de rio.
Só sei que virou o barco,
nos fazendo nadar.

Nada
era eu
Paralisado diante daqueles acontecimentos.

E o que eu vivia se tornava puro sonho.
O que eu sentia se transformava em raiva.
Raiva que até hoje não passa
por eu ter conseguido me salvar daquele doce naufrágio.
Naufrágio que me fez esquecer o quanto eu sou real.

Mas tudo foi extinto como um vulcão.
E minha amada pessoa nua
agora era um personagem de ficção.
E meu saudoso quarto azul
um delírio de um jovem garotão.


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sexta-feira, 13 de maio de 2011

O Inspetor Geral: clássico de Nikolai Gogol ganha roupagem de teatro de rua pelas mãos da Companhia teatral Queimados Encena






















Nove anos depois de ter atuado na peça Che Guevara de John Vaz, tenho a honra de voltar para uma antiga paixão: o teatro. Tive a felicidade de ter sido o ator de Belford Roxo selecionado pela banca composta pelo ator e produtor cultural Leandro Santanna, o diretor teatral Lino Rocca e o cantor e músico Beto Gaspari para participar do espetáculo musical de rua O Inspetor Geral. A peça é uma adaptação livre de Lino para o clássico texto do escritor russo Nikolai Gogol. O enredo é o mesmo de sempre; um cidadão comum é tomado por uma importante autoridade do governo ao chegar em uma cidade governada por administradores corruptos. O desafio de Lino foi transferir a trama da Rússia czarista dos meados do século XIX para a realidade da Baixada Fluminense dos anos 1950. Para isso foi preciso uma profunda pesquisa da historiadora Conceição Santanna. O espetáculo é uma iniciativa da Companhia Teatral Queimados Encena que foi contemplada com um importante patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro através de edital e com o apoio de algumas prefeituras da Baixada como Belford Roxo e Nilópolis.

Espetáculo: O Inspetor Geral

Autor: Nikolai Gogol

Adaptação livre e direção: Lino Rocca

Preparação corporal e assistência de direção: Vânia Santos

Trilha sonora original, preparação vocal e direção musical: Beto Gaspari

Elenco em ordem alfabética: Adriano Evangelista, Bruno Stowasser, Cesário Candhí, Daniel Lopes, Eve Penha, Josy Lousada, Leandro Santanna, Marcela Carvalho, Marcio Rufino, Maurício Gallo, Nancy Calixto e Uelinton Fraga.

Figurinos: Marcelo Viegas

Cenotécnica: Well Barros

Sonorização: Joãozinho

Produção: Companhia Teatral Queimados Encena